Meu Biscoito Vende Mais porque é Fresquinho ou é Fresquinho porque Vende Mais ? A cruel realidade do Sistema Prisional Brasileiro

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Índice Chronica de Confiabilidade : +1 : A Crise do Sistema Penitenciário Brasileiro é muito maior do que se noticiam a grande mídia. Trata-se da essência do Governo e de sua Sociedade !

CHRONICA : ARTIGO EM FOCO

 

MEU BISCOITO VENDE MAIS PORQUE É FRESQUINHO OU É FRESQUINHO PORQUE VENDE MAIS ?

A cruel realidade do Sistema Prisional Brasileiro

 

Assaltante, traficante, estuprador, torturador, assassino, monstro. Estes comportamentos estão frequentemente juntos, na qualificação de boa parte dos criminosos que hoje encontram-se encarcerados no Brasil. E nota-se o aspecto mais perverso desta realidade, quando analisamos a ficha corrida do meliante e constatamos que sua graduação, em muitos casos, se equipara às entradas e saídas do sistema prisional.

Ora, o intuito da pena não é a ressocialização ? Sim, deveria ! Não meramente uma punição, mas a correção deste indivíduo para que ele tivesse condições de retornar à sociedade e voltar a ter uma vida digna. Mas isso é só para encher livro de estudante de Direito. Na prática, todos sabemos que o sistema penitenciário brasileiro só serve para, momentaneamente, livrar a sociedade de um indivíduo perigoso para devolvê-lo, pouco tempo depois, piorado.

 

Em minha matéria  A História da Criminalidade no Rio de Janeiro  eu conto um pouco sobre “como” que um espaço que antes abrigava vagabundos, malandros, arruaceiros embebedados e pequenos gatunos se transformou num verdadeiro Pós Doutorado em criminalidade. Mas de nada adianta saber como começou se não descobrirmos como terminar com este ciclo de perversidade.

Existem duas vertentes que tem que ser abordadas:

1 – Não deixar começar

2 – Estancar o desenvolvimento

 

Citando o experimento de Stanford, facilmente podemos perceber que o meio domina e molda o indivíduo. Principalmente quando obscuro. É público e notório que os artistas se preparam antes de encarnarem seus papéis no que chamam de “laboratório”, ou seja, vão até o local onde o personagem viverá e deixam-se  contaminar  pelas emoções in locco.

Se o personagem vive na marginalidade, eles começam a frequentar comunidades da periferia; se o personagem vai viver em um hospital, passam um tempo naquele ambiente para se familiarizarem com a coisa. O ator Claudio Marzo revelou publicamente que teve extrema dificuldade de se livrar do Velho do Rio, papel que viveu com maestria na novela Pantanal, Exibida pela extinta TV Manchete em 1991. Foram mais de seis meses de extremo sofrimento até voltar à sua personalidade.

Estes, e diversos outros casos, mostram que, de fato, o ambiente influi consideravelmente no comportamento a ser desenvolvido. E quando em cárcere, por mais que o indivíduo tenha fortes convicções pessoais, para sobreviver, precisa adotar comportamentos específicos. Quem nunca ouviu falar do  batismo  da primeira noite ? Que nada mais é do que o estupro coletivo que os novatos sofrem para que sejam submissos ? Uma vez  batizados, escolhem um lado para se protegerem.  Está aceso o estopim.

Do lado de fora, uma sociedade justamente indignada, vítima real da criminalidade, não tem ideia do que de fato ocorre atrás das muralhas dos presídios. E quando sabe, no mais puro instinto de sobrevivência, acredita que está sendo  vingada, justiçada, que aquele indivíduo merece cada segundo de sofrimento.

O que ela não avalia é que o sistema judiciário no Brasil é profundamente falho e devolve, com um sexto da pena cumprida, aquele mesmo criminoso mil vezes potencializado em sua frieza e perversão. Este é o motivo das entradas e saídas com anotações cada vez mais sérias e cruéis. É um ciclo vicioso que jamais terá fim, porque não se apaga fogo com gasolina ou pólvora, e os presídios hoje são um barril de pólvora já em combustão.

O que fazer com esta enorme população carcerária que hoje já supera a de alguns países inteiros ?

Proponho algumas medidas que podem surtir efeitos significativos:

1 – Imediata separação de presos de acordo com os crimes praticados e grau de periculosidade. Os presos comprovadamente mais violentos e chefes de facções seriam transferidos para presídios de segurança máxima, com obrigatoriedade de cumprimento integral das penas.

2 – Implementação de trabalho dentro dos presídios, seja para a manutenção do prédio e subsistência dos detentos (exatamente como existe no exército, onde todo o serviço é feito pelos próprios soldados).

3 – Intensificação dos trabalhos de doutrina comportamental, em parceria com universidades e órgãos ligados aos Direitos Humanos.

4 – Aumento das parcerias com empresas privadas, visando oferecer ao detento um caminho após o cumprimento da pena.  Ele seria treinado e trabalharia nesta área durante o cárcere, com a renda revertida para a manutenção da instituição e, ao sair, teria um emprego para recomeçar a vida.

A outra vertente, “Não deixar entrar”, tem efeito a médio e longo prazo, mas precisa ser iniciada o mais rápido possível, principalmente numa sociedade pós-ditadura, que confunde liberdade de expressão com libertinagem de ação e democracia com anarquia.

Recentemente a sociedade iniciou a discussão pela diminuição da maioridade penal. Vítimas da criminalidade defendem a extinção de limite mínimo, se possível optando pelo extermínio – cortar o mal pela raiz. Correntes humanitárias defendem a permanência dos 18 anos, alegando que o jovem é de fato incapaz de discernir entre o certo e errado.

O que ambos os lados não percebem é que não é a idade que vai mudar o comportamento, mas as experiências que o ser humano, seja lá de qual idade, vai vivenciar. Resguardar o menor, dando-lhe desde cedo o sentimento de impunibilidade  é preparar um futuro marginal com requinte. Por outro lado, jogá-lo no sistema que hoje existe, vai transformá-lo num PhD em crime. O caminho pode estar no mais primitivo dos instintos de sobrevivência: o medo.

A evolução humana prova que sobrevive a espécie que melhor se adapta ao meio. Isso é do ser vivo de todos os reinos naturais. Mas antes deste mecanismo de adaptação, existe outro gatilho, muito mais poderoso, o instinto de sobrevivência alertado pelo medo.

Agentes secretos são preparados para resistir à tortura física. Seus cérebros desenvolvem resistência às dores, e mesmo com choques elétricos e ossos quebrados, muitas vezes morrem sem delatar nada. Mas quando expostos a um medo ancestral – a ratos, por exemplo – todo o autocontrole vai por terra e o instinto fala mais alto que qualquer treinamento.

Com base no documentário vencedor do Oscar da categoria em 1979,  Scared Straight, a emissora A&E americana desenvolveu um programa chamado  Tratamento de Choque, aonde por apenas uma única noite, jovens em potencial caminho para a marginalidade, passam uma noite inteira em um presídio, sentindo na pele o que acontecerá, caso acabem indo para lá. Os presos usados no programa tem liberdade para fazer tortura psicológica, mas não podem tocar nos  novatos. Esta prática mexe com o instinto de preservação através do medo, sem, entretanto, acionar o botão da adaptação. É lógico que não existe 100% de sucesso, principalmente porque muitos jovens já sofrem violência doméstica e tem desenvolvido o  botão  da adaptação, mas em cada 10 jovens, sete, no mínimo, saem modificados.

Por outro lado, como é público que os marginais usam os menores para encabeçar suas ações, baseados na sua imputabilidade, uma mudança na lei, tornando crime hediondo e dobrando a pena para quem estiver com menores em ações, da mesma forma que refreou o sexo com adolescentes (muitos adultos hoje, ao saber que uma moça é menor, mesmo de 17 anos, sequer se aproximam), também pode coibir o aliciamento. Qualquer percentual que se atinja já será lucrativo.

E por fim, a urgente mudança na grade escolar, tirando este culto hipócrita de que  tem que ser doutor para ter boa vida, visando inserir, desde cedo, o jovem em um caminho com vistas a um futuro profissional produtivo – tema este que será abordado oportunamente.

Tais medidas resolverão o enorme problema que hoje o Brasil enfrenta ? Claro que não… Mas há de se ter em mente que todo ser vivo começa a partir de uma única célula. Tudo depende de um primeiro passo.  O tempo de reclamar acabou. Já passou da hora de agir. A sujeira, que nos últimos 40 anos foi jogada para debaixo do tapete, criou vida e está dentro da casa de todos nós. Hoje o cidadão de bem tem que ficar atrás das gradas, privado de seu direito de ir e vir, e as grandes cidades já não são mais cercadas por vegetação exuberante, e sim por colônias de criminalidade que devolvem exatamente aquilo que lhes foi dado: falta de empatia, egoísmo, ignorância. Não temos mais tempo para discutir de quem é a culpa. A solução tem que vir de qualquer jeito. Ou pelo menos, parte dela. Se assim não for feito, permaneceremos no  “Ciclo do Biscoito” : vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais ?

 

COMO CITAR ESSE ARTIGO

GHREICE, Vivian. Meu Biscoito Vende Mais porque é Fresquinho ou é Fresquinho porque Vende Mais ? A cruel realidade do Sistema Prisional Brasileiro. Chronica.online. Brasil, 13 de janeiro de 2017. disponível em :
http://chronica.online/2017/01/13/meu-biscoito-vende-mais-porque-e-fresquinho-ou-e-fresquinho-porque-vende-mais-a-cruel-realidade-do-sistema-prisional-brasileiro/. acesso em : 13 de janeiro de 2017, 21h00. <indique horário em que acessou esse artigo>

 

REFERÊNCIAS

EXPERIMENTO DE STANFORD
https://pt.wikipedia.org/wiki/Experimento_de_aprisionamento_de_Stanford

/AUTORIA
/Vivian Ghreice, Jornalista
/Pós-Graduada em Perícia Criminal e Ciências Forenses

/CHRONICA.online

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